Blog · Orientação profissional · 11/10/2026
Escolha pela essência: por que a primeira escolha profissional começa pelo autoconhecimento?
Por Caroline Reis Pereira, psicóloga clínica e consultora de carreiraResposta curta: na orientação profissional de primeira escolha, a decisão mais consistente é a que nasce do autoconhecimento. Quando o adolescente entende quem é, o que o move e de onde vêm as suas ideias sobre profissões, ele passa a escolher com autonomia, e não para atender expectativas.
Escolher no meio de um turbilhão
A adolescência é uma fase de muitas mudanças ao mesmo tempo: o corpo se transforma, a relação com a família muda, a pressão dos padrões e das redes aumenta. E é justamente nesse momento que a maioria dos jovens precisa decidir o que vai cursar.
Gosto da visão de que o adolescente não é apenas "alguém que já não é criança e ainda não é adulto", mas alguém que já está sendo, que merece um olhar cuidadoso para essa fase. Rodolfo Bohoslavsky, uma das principais referências em orientação vocacional, lembra que escolher algo implica sempre deixar de lado, com alguma dor, todo o resto. Não é pouca coisa para quem tem 16 ou 17 anos.
Orientação não é teste vocacional
Por isso, a orientação profissional que pratico não deve ser comparada a um teste. O teste sugere áreas. Na orientação, é o próprio jovem que chega às suas conclusões: nenhuma resposta pronta é dada, e sim reflexões e possibilidades de caminho.
Bohoslavsky escreve que a escolha do futuro pertence a quem escolhe, e que nenhum profissional, por mais capacitado que seja, tem o direito de tomá-la para si. Essa frase guia a forma como conduzo cada processo.
O papel de quem orienta
Na orientação profissional clínica, o principal instrumento é a conversa. Pela escuta ativa, sem julgamento, com acolhimento, o orientador cria um vínculo que permite ao jovem pensar os próprios pensamentos e "se dar conta" de si a cada encontro.
Na minha visão, o orientando é responsável pelo seu processo, e eu sou quem acompanha, facilita e dá ritmo, sempre respeitando o tempo e a disponibilidade interna do adolescente. Somo a isso o olhar da Abordagem Integrativa Transpessoal: técnicas que ajudam conteúdos do inconsciente a virem à consciência, estímulo à intuição e o resgate de valores essenciais de cada pessoa.
Como isso aparece na prática
Num dos processos que acompanhei e que deu origem ao meu trabalho de especialização, uma jovem de 17 anos chegou querendo clareza sobre o que gostava e conseguia fazer. Nos encontros realizados, trabalhamos:
- Autoconhecimento
- Realidade profissional
- Mercado de trabalho
- Identificação das principais áreas de interesse
- Elaboração de caminho profissional
No meio do processo, ela contou que o futuro já parecia menos assustador. No fim, tinha um plano: terminar o ensino médio, fazer um intercâmbio e, depois, entrar na faculdade de psicologia, sem abrir mão da escrita e da música, que apareceram em todo o percurso.
Uma escolha não define a vida inteira
Esperar que uma única escolha seja responsável por todo o futuro é pressão demais, e uma expectativa irreal. Num mundo em que as pessoas terão diferentes atuações ao longo da vida, vale mais se conhecer em profundidade para se adaptar a cenários diferentes do que acertar uma profissão para sempre.
Quando o adolescente é convidado a caminhar para dentro de si e encontrar as próprias sombras e tesouros, a adolescência pode ser vivida não só como crise, mas como um período de descoberta e fortalecimento. No caminho em busca da profissão, ele encontra um Eu. E é esse Eu que vai ocupar um lugar no mundo.
É com esse espírito que nasceu a Jornada das Escolhas, a versão atual do meu processo de orientação para adolescentes.
Referências
- BOHOSLAVSKY, Rodolfo. Orientação vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
- FAVILLI, Myrna Pia. A metamorfose adolescente: uma nova relação corpo-mente. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 50, n. 2, 2016.
- LIMA, Giovanna A. M. de et al. Orientação profissional e psicanálise: o olhar clínico. São Paulo: Vetor, 2018.
- NEIVA, Kathia M. C. Processos de escolha e orientação profissional. São Paulo: Vetor, 2013.
- SALDANHA, Vera. Psicologia transpessoal: abordagem integrativa. Ijuí: Unijuí, 2017.
- PEREIRA, Caroline Reis. Escolha pela essência: a apropriação do EU no processo de orientação profissional. Monografia, Colmeia, 2019.
Quer conversar sobre isso? Conheça Jornada das Escolhas.
